Fim do Petrodólar? Bitcoin Surge como Reserva de Valor Digital em Nova Disputa Econômica Global
Bitcoin se posiciona como alternativa digital em meio à reconfiguração da ordem econômica mundial.
A atual conjuntura econômica global, marcada pelo enfraquecimento do petrodólar e pela busca de bancos centrais por reservas não soberanas, apresenta o ambiente mais propício da história para o Bitcoin. Samir Kerbage, sócio-fundador e CIO da Hashdex, uma das maiores gestoras de criptoativos do mundo, avalia que este momento pode acelerar significativamente a consolidação do Bitcoin como uma reserva de valor digital.
“O mundo está vivendo um momento em que a regra do jogo está mudando, os participantes estão se reorientando e, nessa nova orientação global, a demanda por uma reserva de valor não soberana, que não dependa dos governos, está cada vez maior”, declarou Kerbage em entrevista ao Outliers InfoMoney. Para ele, o declínio do pacto do petrodólar, que atrelava a segurança militar dos EUA à negociação de petróleo em dólar, é uma ruptura de paradigma que beneficia diretamente ativos como o Bitcoin e o ouro.
A análise foi divulgada no episódio 182 do programa, apresentado por Clara Sodré, analista de fundos da XP, e Fabiano Cintra, responsável pela seleção de fundos. Kerbage, com vasta experiência em infraestrutura de mercados financeiros, destaca movimentos estratégicos de grandes economias, como a possível reserva estratégica de Bitcoin pelos Estados Unidos e o acúmulo de ouro pela China.
Bitcoin como ferramenta geopolítica e reserva de valor emergente
Segundo Kerbage, há um incentivo geopolítico por parte dos americanos para desvalorizar o ouro e inflar o valor do Bitcoin, visando impactar a estratégia chinesa. “O Bitcoin pode ter um papel geopolítico muito importante nessa configuração dos próximos cinco ou dez anos”, pontuou o CIO da Hashdex.
Desde sua fundação em 2018, a Hashdex defende a tese de que o Bitcoin é uma “reserva de valor digital emergente”. Kerbage explica que reserva de valor é a capacidade de preservar patrimônio ao longo do tempo e entre gerações, e o Bitcoin seria a primeira forma 100% digital a cumprir essa função, competindo com ativos tradicionais como ouro e imóveis.
No entanto, Kerbage admite que, no cenário atual, o Bitcoin ainda não é uma boa reserva de valor. A demanda por reservas não soberanas tem crescido exponencialmente, mas são os bancos centrais que a impulsionam, e eles ainda não compram Bitcoin de forma institucionalizada. Por enquanto, o ativo se comporta mais como um papel de risco, com correlação maior ao Nasdaq 100 do que ao ouro.
A evolução do Bitcoin para uma reserva de valor consolidada
A tese da Hashdex é de evolução gradual. O Bitcoin, ao longo de anos ou décadas, deve migrar de ativo emergente para uma reserva de valor consolidada. “A grande pergunta é em quanto tempo isso vai acontecer — se vai acontecer em 5 anos, 10 anos ou 50 anos”, questionou Kerbage.
Quando esse processo se completar, a expectativa de valorização expressiva que existe hoje sobre o ativo deixará de fazer sentido. O Bitcoin se tornará, então, uma classe de ativo mais próxima do ouro do que do venture capital, consolidando seu papel no cenário financeiro global.
Kerbage também ressalta a distinção entre Bitcoin e outras criptomoedas. Enquanto o Bitcoin carrega a narrativa de reserva de valor, as altcoins devem ser vistas como um “play de tecnologia”, sem a mesma tese de escassez ou independência monetária. “Outras criptos você pode ver como um play de tecnologia mesmo. Não existe uma tese de reserva de valor ali”, afirmou.
O dinheiro digital nascido da desconfiança
O Bitcoin surgiu em 2009, após a crise financeira de 2008. Seu criador, sob o pseudônimo Satoshi Nakamoto, incluiu na primeira transação da rede uma manchete sobre o resgate de bancos pelo governo britânico. A mensagem era clara: o mundo precisava de um dinheiro digital, escasso, sem banco central ou intermediários.
Com emissão limitada a 21 milhões de unidades e regras imutáveis gravadas em código, o Bitcoin foi concebido como uma alternativa soberana ao sistema financeiro tradicional. Em 16 anos, evoluiu de uma curiosidade de nicho para um ativo com capitalização de mercado na casa dos trilhões de dólares, presente em portfólios institucionais e com um papel crescente no tabuleiro geopolítico global.
