Ação mais barata da Bolsa: Por que o P/VPA baixo pode enganar investidores? Entenda o ROE e o Banco do Brasil
Ação mais barata da Bolsa: o perigo de olhar apenas o P/VPA e a importância do ROE para entender o verdadeiro valor de uma empresa
Muitos investidores iniciantes buscam a ação mais barata da Bolsa, acreditando que encontrar empresas com baixos múltiplos, como P/L (Preço/Lucro) ou P/VPA (Preço sobre Valor Patrimonial), seja o caminho para bons retornos. Essa abordagem, no entanto, pode ser uma armadilha. O mercado, em geral, precifica as empresas de acordo com suas perspectivas e resultados, e um preço baixo raramente é um acaso.
A pergunta “Qual é a ação mais barata da Bolsa hoje?” parte de uma premissa equivocada, como aponta Marco Saravalle, mestre em Economia e Finanças pela FGV/EESP. Investir com sucesso vai além de simplesmente adquirir ações negociadas com os menores múltiplos. É fundamental compreender os fatores que levam uma empresa a ter um P/VPA baixo, e o ROE (Return on Equity) surge como um indicador crucial nessa análise.
Analisar apenas métricas como P/L e P/VPA sem considerar outros indicadores pode levar a decisões de investimento equivocadas. O mercado dificilmente erra por muito tempo, e quando uma ação negocia com forte desconto, geralmente há uma razão sólida por trás disso. Conforme informação divulgada pelo BM&C News, a compreensão profunda dos fundamentos de uma empresa é essencial para identificar oportunidades reais de investimento.
O que o P/VPA realmente indica e por que ele sozinho não basta
O P/VPA, ou Preço sobre Valor Patrimonial por Ação, revela quanto o mercado está disposto a pagar pelo patrimônio líquido de uma companhia. Se uma empresa tem um valor patrimonial de R$ 100 por ação e negocia a R$ 60, seu P/VPA é de 0,60x. À primeira vista, pode parecer que o investidor está comprando R$ 100 por apenas R$ 60, uma aparente barganha.
No entanto, essa interpretação é perigosa. O patrimônio de uma empresa só tem valor econômico se for capaz de gerar retornos consistentes para seus acionistas. É aí que entra o ROE, um indicador ainda mais importante. O ROE mede a capacidade da empresa de gerar lucro a partir do patrimônio de seus acionistas, respondendo se a companhia está, de fato, transformando capital em riqueza.
ROE: a chave para entender o desconto nas ações
Um ROE baixo sugere que o patrimônio da empresa está produzindo pouco valor, e o mercado tende a atribuir um múltiplo menor a ele. Essa distinção é frequentemente ignorada por investidores que se fixam apenas no P/VPA. A precificação do mercado reflete a qualidade do negócio e sua capacidade de gerar retorno, e não apenas o valor contábil de seus ativos.
Um exemplo clássico citado é o Banco do Brasil. Historicamente, a instituição negocia com um P/VPA baixo, próximo de 0,6 vez seu valor patrimonial. Apesar de parecer uma pechincha, o mercado olha além do patrimônio. Após recentes resultados, o banco apresentou uma deterioração em sua rentabilidade, com um ROE próximo de 7%, inferior ao seu histórico e abaixo do custo de capital.
Isso demonstra que o mercado não está apenas descontando o patrimônio, mas sim a menor capacidade de gerar retorno sobre ele. Ignorar o ROE significa deixar de lado o principal motivo para esse desconto, focando apenas em um número que pode ser enganoso.
Mitre Realty e a dificuldade de monetizar o patrimônio
Outro exemplo pertinente é a Mitre Realty, que também negocia com múltiplos descontados em relação ao seu patrimônio. Investidores podem interpretar isso como uma oportunidade automática, mas a análise da rentabilidade revela outra história. Nos últimos trimestres, a empresa tem enfrentado dificuldades em transformar seu patrimônio em lucro consistente, com um ROE ainda baixo para o setor.
Mesmo com esforços para impulsionar vendas e otimizar a operação, a prévia operacional do 2º trimestre de 2026 mostrou uma queda relevante nas vendas líquidas anuais. Isso evidencia que a recuperação do negócio ainda enfrenta desafios significativos. O mercado, nesse caso, não ignora o patrimônio, mas precifica a dificuldade da empresa em monetizá-lo de forma eficiente.
O mercado compra retorno, não apenas patrimônio
A máxima entre investidores institucionais é clara: “Empresas não são negociadas pelo patrimônio que possuem, mas pelo retorno que conseguem extrair dele.” Por isso, empresas com ROEs elevados frequentemente negociam acima do valor patrimonial, enquanto negócios com baixa rentabilidade tendem a permanecer por anos negociando abaixo dele.
O desconto, muitas vezes, não é uma oportunidade, mas sim um reflexo fiel da qualidade do negócio. Ao se deparar com uma empresa negociando a 0,5 ou 0,6 vez seu patrimônio, a pergunta crucial não deveria ser “Por que ela está tão barata?”, mas sim “O que está impedindo essa empresa de gerar mais valor para seus acionistas?”.
Essa mudança de perspectiva é fundamental. Investir não se trata apenas de comprar ativos baratos, mas de identificar empresas cuja capacidade futura de geração de valor ainda não foi plenamente reconhecida pelo mercado. Essa distinção separa quem apenas compra ações descontadas de quem realmente investe em negócios capazes de multiplicar patrimônio ao longo do tempo, conforme as análises de Marco Saravalle, CIO da MSX e diretor de Investimentos da Krivo Capital, divulgadas pelo BM&C News.
