Ano do Cavalo de Fogo: China impulsiona exportação de deflação e desafia economia brasileira em 2026
Economia chinesa em 2026: o Cavalo de Fogo traz desafios e oportunidades para o Brasil, com alerta para exportação de deflação e pressão em commodities.
Enquanto o Brasil se prepara para o Carnaval, a China celebra a chegada do Ano do Cavalo de Fogo. A segunda maior economia do mundo, no entanto, desperta preocupações globais. Especialistas apontam que, apesar dos esforços do governo chinês em estimular a economia, a persistente falta de demanda interna pode levar o país a continuar exportando deflação, impactando diretamente o cenário econômico brasileiro em 2026.
O crescimento de 5% registrado no último ano na China, embora dentro da meta governamental, esconde um problema estrutural: o desequilíbrio entre oferta e demanda. Dados recentes revelam que o índice de preços ao consumidor na saída das fábricas recuou pelo 40º mês consecutivo, indicando um excesso de capacidade industrial. Simultaneamente, o aumento do índice de preços ao consumidor foi de apenas 0,2% em janeiro, e as vendas no varejo crescem no ritmo mais lento desde o colapso da Covid-19 em 2020, evidenciando a fraqueza do consumo doméstico.
Para contornar essa situação e reduzir a dependência de exportações, o governo chinês tem implementado medidas para fortalecer o consumo interno. Conforme análise de especialistas ouvidos pelo InfoMoney, esses pacotes de estímulo foram bem-sucedidos em evitar um colapso no setor imobiliário, que vinha sofrendo com a falta de apetite dos consumidores. No entanto, a resolução do desequilíbrio entre oferta e demanda ainda parece distante.
Estabilização imobiliária, mas sem retomada expressiva
Lucas Sigu Souza, sócio-fundador da Ciano Investimentos, avalia que o plano estatal reduziu o risco de um colapso no setor imobiliário, trazendo previsibilidade para o mercado global. Contudo, Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, alerta que a estabilização não significa uma retomada. “O modelo de crescimento baseado em expansão imobiliária está se esgotando”, afirma Costa, indicando que não há uma retomada cíclica significativa.
Os dados reforçam esse pessimismo. João Pedro Moreno, analista da Nexgen Capital, destaca que o investimento imobiliário caiu 17,2%, com cerca de 80 milhões de imóveis não vendidos ainda pressionando o mercado. O foco do governo chinês permanece em manufatura e tecnologia, e não em um resgate do setor de construção civil. As vendas de imóveis novos atingiram o menor nível em mais de 15 anos, e os preços de apartamentos usados despencaram, afetando o poder de compra das famílias chinesas.
Exportação de deflação e seus reflexos no Brasil
Com o consumo interno chinês ainda fraco, a indústria do país tem encontrado na exportação a saída para seu excesso de produção. “A China continua ‘exportando deflação’ ao direcionar seu excedente para mercados globais, pressionando preços internacionais para baixo”, explica Moreno. Esse fenômeno gera um impacto duplo para o Brasil.
Para a indústria brasileira, setores como siderurgia e metalurgia podem enfrentar maior concorrência. Por outro lado, a importação de insumos a preços menores pode ter um efeito desinflacionário sobre bens comercializáveis no Brasil, conforme detalha Marianna Costa. No entanto, a demanda morna da construção civil chinesa deve manter os preços de commodities como minério de ferro e aço sob pressão.
Commodities e agronegócio sob nova ótica
Apesar da pressão de baixa em minério e aço, Lucas Sigu Souza enxerga oportunidades na transição energética. A indústria de carros elétricos e infraestrutura tecnológica, que cresce na China, demandará minério e aço, mitigando parcialmente os efeitos negativos da construção civil. A Vale (VALE3), por exemplo, pode não ver um aumento expressivo em seu faturamento vindo da China, mas o país asiático também não deve ser o principal culpado por uma queda abrupta se o PIB chinês mantiver crescimento, pois a demanda apenas migra de setor.
No agronegócio, a relação comercial tende a se tornar mais tensa. Embora a demanda por alimentos seja resiliente, a China, como comprador dominante, pode usar seu poder para negociar preços com mais dureza. Lucas Sigu Souza alerta para um impacto específico em frigoríficos brasileiros como JBS (JBSS3), MBRF (MBRF3) e Minerva (BEEF3), pois a China investe em produção própria de frango e porco, o que pode reduzir a demanda por carne bovina importada e pressionar seus preços.
Investir na China: oportunidade ou armadilha?
Para investidores brasileiros que consideram alocar capital na China via ETFs ou BDRs, a recomendação é de extrema seletividade. Embora os valuations descontados das empresas chinesas possam parecer atrativos, é fundamental estar ciente dos riscos estruturais. O cenário geopolítico, com a possibilidade de novas tarifas comerciais, gera preocupação, segundo Souza, que sugere foco nos setores de tecnologia e financeiro, evitando o setor imobiliário.
João Pedro Moreno concorda que os ativos negociam com desconto, mas alerta para o risco de “armadilha de valor” se a transição da China para uma economia de consumo demorar mais que o esperado. A volatilidade deve permanecer elevada, exigindo paciência e um horizonte de longo prazo do investidor, conforme aponta a análise de Leonardo Guimarães para o InfoMoney.
