Corrida Desesperada Por Petróleo: Escassez Dispara Prêmios Recordes e Assusta Refinarias Globais

A busca frenética por barris de petróleo bruto revela uma escassez severa, impulsionando preços a patamares recordes no mercado físico e forçando refinadores a buscar suprimentos em locais cada vez mais distantes, com consequências preocupantes para a disponibilidade de combustíveis essenciais.

Enquanto a atenção global se volta para possíveis acordos de paz, os bastidores do mercado de petróleo fervem com uma corrida contra o tempo. Negociantes e refinadores de todo o mundo vasculham o planeta em busca de suprimentos de petróleo disponíveis para entrega imediata, evidenciando uma demanda que supera drasticamente a oferta atual.

No vital mercado físico do Mar do Norte, por exemplo, a Bloomberg reportou que foram enviados 40 lances por cargas de petróleo esta semana, mas apenas quatro encontraram ofertas. Essa disparidade é um claro sinal da escassez que se avizinha, com cargas para entrega nas próximas semanas sendo negociadas a preços sem precedentes, ultrapassando a marca de US$ 140 por barril.

Conforme informação divulgada pela Bloomberg, essa situação de pânico nos principais mercados físicos de petróleo do mundo sinaliza a gravidade da escassez de bruto que deve se intensificar nas próximas semanas. A perda de suprimentos do Oriente Médio deixou uma lacuna crescente que os mercados estão sentindo intensamente.

Refinarias europeias sob pressão e risco de redução na produção

Os preços astronômicos do petróleo físico indicam que muitos refinadores europeus podem ser forçados a seguir o exemplo de seus colegas asiáticos e reduzir suas operações. Essa medida, embora possa ajudar a equilibrar o mercado de petróleo bruto, tem o potencial de agravar ainda mais a escassez de produtos derivados vitais, como diesel e combustível de aviação.

Neil Crosby, chefe de pesquisa da Sparta Commodities, enfatizou a gravidade da situação, afirmando que “simplesmente há falta de petróleo bruto”. Ele alertou que o Brent físico está em uma situação caótica e que, nesse ritmo, até mesmo os refinadores europeus terão que diminuir sua utilização, possivelmente já no próximo mês.

Contraste entre mercado físico e futuro, e a realidade do Estreito de Ormuz

O frenesi no comércio físico de petróleo contrasta fortemente com o mercado de futuros, onde o petróleo para entrega em junho registrou queda de 13% na semana, fechando em torno de US$ 95 o barril. Essa divergência se deve ao otimismo gerado pelas notícias de um cessar-fogo entre EUA e Irã.

Embora tenha havido sinais de aumento de atividade no Estreito de Ormuz, o tráfego ainda permanece significativamente abaixo dos níveis anteriores ao conflito. Mesmo que as negociações resultem na retomada dos fluxos normais, o alívio pode não ser rápido o suficiente para evitar um aperto no mercado, pois o transporte de petróleo do Golfo para as refinarias leva semanas.

Sultan al Jaber, CEO da Abu Dhabi National Oil, destacou em uma postagem no LinkedIn que as últimas cargas que transitaram pelo Estreito de Ormuz antes do conflito estão chegando aos seus destinos. “É aqui que os mercados negociados no papel encontram a realidade física, e a lacuna de 40 dias nos fluxos globais de energia está verdadeiramente exposta”, observou.

Prêmios recordes para petróleo de entrega imediata e busca por fontes alternativas

A lacuna entre a oferta e a demanda se manifesta claramente no prêmio que os refinadores estão dispostos a pagar por cargas de petróleo disponíveis a curto prazo. Operadores de refinarias asiáticas, falando anonimamente, revelaram que o preço se tornou secundário, com a prioridade sendo garantir barris de petróleo para assegurar a segurança energética.

O **Dated Brent**, benchmark crucial no mercado físico de petróleo, atingiu um recorde de US$ 144 o barril antes do cessar-fogo, superando seus picos de 2008, mesmo com os futuros permanecendo bem abaixo de seus níveis históricos. Na sexta-feira, o preço caiu para US$ 126 o barril, ainda mais de US$ 30 acima dos futuros de Brent para junho.

Negociantes como Trafigura e Gunvor ofereciam mais de US$ 22 o barril acima do Dated Brent por cargas de petróleo no Mar do Norte para entrega no final de abril e início de maio. Suprimentos da Nigéria para carregamento no próximo mês foram oferecidos a até US$ 25 por barril acima do benchmark, um salto expressivo em comparação com menos de US$ 3 antes do conflito com o Irã.

Países asiáticos diversificam fontes e EUA se tornam alvo principal

Os países asiáticos, altamente dependentes do Estreito de Ormuz, têm expandido suas buscas por petróleo para além de suas fontes tradicionais. Refinadores japoneses lideraram uma corrida para comprar petróleo dos EUA, que está exportando em níveis recordes. A China também aumentou suas compras de petróleo de Vancouver, no Canadá, e a Índia tem intensificado a aquisição de petróleo da Venezuela.

O foco está em obter barris o mais rápido possível, e os refinadores estão dispostos a pagar pela prontidão. Refinadores japoneses, por exemplo, optaram por navios menores para suas compras de petróleo dos EUA, visando agilizar o trânsito pelo Canal do Panamá. O presidente Donald Trump comentou sobre o “número massivo” de navios-petroleiros indo para os EUA para carregar seu petróleo, destacando a importância do país como fornecedor.

Retroação (Backwardation) e o dilema financeiro para refinarias menores

A enorme diferença entre o preço do petróleo físico e os futuros é um reflexo da dinâmica de **retroação (backwardation)**, onde barris com entrega mais rápida comandam um prêmio significativo. Esse nível extremo de prêmios para petróleo de entrega imediata impõe uma pressão imensa no mercado.

Refinarias menores enfrentam desafios financeiros maiores devido aos preços elevados e à dificuldade de se proteger em um mercado onde o petróleo físico é substancialmente mais caro que os derivativos. Roberto Ulivieri, consultor na Midhurst Downstream, descreve a situação como “um enorme pesadelo de gestão de risco de preço”, onde as margens no papel podem ser fantásticas, mas os fluxos de caixa reais podem ser bem diferentes.

Aumento nos preços de combustíveis e alerta para o mercado americano

Como resultado, algumas refinarias estão começando a se afastar do mercado, o que levará a uma redução na produção e apertará ainda mais os mercados de derivados de petróleo. Os preços do combustível de aviação e do diesel já dispararam para níveis recordes ou quase recordes, ultrapassando US$ 200 o barril.

Nos Estados Unidos, os estoques de gasolina encolheram para o menor nível em quase 16 anos, de acordo com a Administração de Informação de Energia. Analistas alertam que, com a crescente demanda dos compradores globais pelos barris americanos, a escassez do mercado pode acabar sendo sentida também nos EUA, caso as exportações continuem elevadas e não sobre petróleo bruto suficiente para as refinarias domésticas.

Redação Portal DBC

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