Gás Natural: O Novo “Tesouro” da Venezuela Que Supera o Petróleo e Desafia Sanções dos EUA

O Gás Natural Venezolano: Uma Nova Era Energética em Meio a Desafios Globais

Enquanto as vastas reservas de petróleo da Venezuela sempre dominaram o cenário energético mundial, um novo e promissor “grande prêmio” emerge das profundezas do oceano: o gás natural. Localizado em campos submarinos, especialmente na costa leste, adjacente a Trinidad e Tobago, este recurso representa uma oportunidade estratégica para o país sul-americano, com potencial para desenvolvimento mais rápido e menos entraves do que o tradicional petróleo. Empresas como a Shell já demonstram um forte interesse em explorar esses bolsões de gás, um contraste notável com a relutância de muitas petroleiras em se aventurar nos campos de petróleo venezuelanos, devido à complexidade e ao controle estatal.

A exploração desses campos de gás, descobertos há décadas, permaneceu em grande parte adormecida enquanto a Venezuela concentrava seus esforços na extração e exportação de petróleo. No entanto, o cenário está mudando. As sanções impostas pelos Estados Unidos ao governo venezuelano e à sua estatal de petróleo, a Petróleos de Venezuela (PDVSA), representaram um obstáculo significativo. Contudo, o Departamento do Tesouro americano tem gradualmente flexibilizado essas restrições, abrindo caminho para novas oportunidades de negócios no setor de gás natural.

A chave para desbloquear o potencial do gás natural venezuelano reside na cooperação com Trinidad e Tobago. A nação insular possui a infraestrutura necessária para processar e exportar o combustível, algo que a Venezuela ainda não desenvolveu. Apesar das tensões políticas recentes, a necessidade mútua e o potencial econômico significativo impulsionam a busca por acordos. Conforme informações divulgadas pelo The New York Times, o gás natural pode ser o “grande prêmio” da Venezuela, superando o petróleo em termos de desenvolvimento rápido e atração de investimentos estrangeiros.

Dragon: Um Gigante Adormecido Pronto Para Despertar

Entre os projetos mais promissores está o campo de gás **Dragon**, localizado na fronteira marítima com Trinidad e Tobago. Este campo, batizado em referência às águas agitadas que separam os dois países, já foi alvo de tentativas de exploração no passado, que falharam devido à escassez de recursos financeiros. Em 2023, um marco foi alcançado quando a Venezuela concordou em permitir que a **Shell** explorasse o campo.

A estratégia para o Dragon envolve a construção de um **pequeno gasoduto** para conectar o campo à infraestrutura existente em Trinidad e Tobago. Esta abordagem é considerada mais econômica do que construir toda a infraestrutura de exportação do zero na Venezuela, que carece de terminais para exportação de gás. A necessidade de Trinidad e Tobago para acessar esse gás é um fator que traz segurança para a Shell, pois a Venezuela teria poucas alternativas para monetizar esse recurso sem o país vizinho, segundo Francisco J. Monaldi, chefe do programa de energia para a América Latina na Universidade Rice. O campo Dragon, juntamente com outro projeto de gás na mesma região, são vistos como os poucos novos empreendimentos com chances reais de serem desenvolvidos nos próximos cinco anos.

Novas Licenças e a Busca por Investimentos Internacionais

Recentemente, novas licenças emitidas pelo Departamento do Tesouro americano parecem ter **ampliado a liberdade** para empresas de petróleo e gás negociarem e operarem na Venezuela. A Shell está avaliando o impacto dessas novas permissões em seus projetos de gás offshore. A **BP**, outra gigante energética, também está buscando autorização dos EUA para desenvolver um segundo projeto, denominado **Cocuina**.

Rachel Ziemba, pesquisadora sênior associada do Center for a New American Security, aponta que o governo americano está criando um ambiente que permite aos atores já presentes no mercado continuar suas operações. No entanto, Ziemba também ressalta que persistem desafios significativos relacionados ao acesso à eletricidade, segurança e ao sistema bancário venezuelano. A expectativa é que o projeto Dragon, se concretizado, possa gerar cerca de **US$ 500 milhões por ano** em receita, com uma parcela considerável revertendo para a Venezuela em impostos e royalties, conforme estimativas de Luisa Palacios, ex-presidente da refinaria Citgo Petroleum.

Tensões Políticas e a Necessidade de Cooperação Regional

Apesar do potencial econômico, o avanço dos projetos de gás natural venezuelano é um processo complexo, influenciado pelas relações bilaterais e pelas políticas dos EUA. O relacionamento entre a Venezuela e Trinidad e Tobago, embora crucial para a exploração do gás, passou por um período de deterioração no último ano. A Venezuela expressou descontentamento com o alinhamento de Trinidad e Tobago com os Estados Unidos em relação ao governo de Nicolás Maduro, chegando a declarar a primeira-ministra de Trinidad e Tobago “persona non grata” e a interromper negociações de gás.

Por outro lado, Trinidad e Tobago tem um interesse vital em acessar os campos de gás venezuelanos, uma vez que sua própria produção de gás tem diminuído, afetando sua economia, que é fortemente dependente da exportação de combustíveis. Ao mesmo tempo, a Venezuela desperdiça uma quantidade significativa de gás que produz, contribuindo para as mudanças climáticas através do **flaring** (queima de gás em tochas). Dados do Banco Mundial indicam que, em 2024, a Venezuela queimou quase tanto gás quanto os Estados Unidos, apesar de produzir muito menos energia. “É do interesse de todos que cooperemos para desenvolver em conjunto esses recursos de gás natural”, afirmou Kevin Ramnarine, ex-ministro de Energia de Trinidad e Tobago.

Desafios e Perspectivas Futuras no Setor Energético

Em outra frente, empresas como a **Eni** e a **Repsol** já produzem gás natural na costa oeste da Venezuela, perto da Colômbia, que o país utiliza para geração de eletricidade. Tradicionalmente, o pagamento por esse gás era feito em petróleo, que as empresas revenderiam. No entanto, sanções mais rigorosas dos EUA após o retorno de Donald Trump ao poder bloquearam esse tipo de transação. As novas isenções concedidas pelo Tesouro americano podem abrir caminho para a retomada desses pagamentos, mas a Eni e a Repsol ainda não confirmaram se isso permitirá a aceitação de pagamentos da Venezuela.

Qualquer aumento na produção de gás no lado oeste do país estaria limitado pela capacidade da Venezuela de utilizá-lo internamente, e a reativação de um gasoduto para a Colômbia exigiria investimentos significativos. A questão central, segundo Monaldi, é: “quem vai fazer esse investimento?”. O CEO da Shell, Wael Sawan, destacou que projetos como o Dragon representam oportunidades que poderiam ser ativadas em meses, com potencial de bilhões de dólares em investimentos e produção nos próximos anos, ressaltando o longo horizonte de projetos de óleo e gás. O governo dos EUA, por meio de seu porta-voz Taylor Rogers, afirmou estar trabalhando para “tornar a Venezuela próspera novamente” e garantir que empresas de petróleo e gás possam fazer investimentos sem precedentes no país.

Redação Portal DBC

Estou aqui para trazer para você o melhor conteúdo, na hora certa.