Natura: Receita despenca 9,1% e lucro cai 92,1% no 2º trimestre de 2026 com falhas internas e falta de produtos no Brasil
Natura reconhece falhas internas e queda brusca na receita, com lucro líquido despencando 92,1% no 2º trimestre de 2026
A Natura, uma das maiores empresas de cosméticos do Brasil, divulgou resultados preocupantes para o segundo trimestre de 2026, apresentando uma queda significativa em sua receita líquida e um tombo expressivo em seu lucro líquido. A companhia admitiu que parte expressiva desses resultados negativos está atrelada a problemas internos, que afetaram a operação, especialmente no mercado brasileiro.
Entre abril e junho de 2026, a receita líquida consolidada da Natura atingiu R$ 5,17 bilhões, representando um recuo de 9,1% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O Brasil foi o principal motor dessa retração, com a receita da operação brasileira caindo 14,8%, chegando a R$ 3,07 bilhões. Embora a empresa mencione um cenário de consumo mais desafiador, a administração reconhece que as dificuldades de execução interna foram um fator determinante.
Esses desafios internos incluem mudanças comerciais, a implantação de novos sistemas, a transição do modelo de franquias e, notavelmente, dificuldades na cadeia de abastecimento, que resultaram na falta de produtos. Conforme informação divulgada pela própria companhia, a indisponibilidade de itens essenciais prejudicou a produtividade das consultoras, um canal estratégico de vendas da Natura, e impactou a satisfação dos clientes.
Falta de produtos e problemas de sistema afetam a operação da Natura
A indisponibilidade de produtos foi um dos gargalos mais evidentes no trimestre. A falta de itens procurados pelos consumidores impactou diretamente a produtividade das consultoras, que são a espinha dorsal das vendas da Natura. O CEO João Paulo Ferreira informou que a empresa já conseguiu mitigar parte desse problema, operando com menos da metade do pico de indisponibilidade, mas a normalização dos estoques é um indicador crucial para os próximos meses.
A implantação do sistema de gestão SAP, concluída no primeiro trimestre, gerou estresse na cadeia de suprimentos devido a uma interrupção planejada. Na retomada, a Natura identificou desequilíbrios com outro sistema de planejamento integrado, onde alguns parâmetros não estavam corretamente configurados. Essa combinação de falhas no planejamento e falta de produtos evidenciou os riscos inerentes a grandes transformações tecnológicas em empresas de porte.
As vendas das marcas da Natura sentiram a pressão no Brasil, com uma queda de 14,5%, enquanto a Avon registrou um recuo ainda maior, de 22,5%. Essas dificuldades operacionais impactaram a receita consolidada, gerando frustração na gestão da empresa.
Mudanças comerciais e efeitos tributários pressionam resultados da Natura
Além dos problemas de abastecimento e sistemas, a Natura implementou alterações nas políticas de preços e nas regras comerciais entre seus canais. Essas mudanças visaram atender a reclamações de consultoras sobre disparidades nas condições comerciais oferecidas aos consumidores, dependendo do canal de compra utilizado. A migração de 100% dos contratos de franquia para um modelo baseado em vendas efetivas ao consumidor (sell out) também gerou adaptações temporárias nos estoques dos franqueados, pressionando a receita.
A empresa também enfrentou um efeito tributário relacionado a mudanças no regime de substituição tributária do ICMS em São Paulo. Esses fatores, somados às dificuldades operacionais, contribuíram para o desempenho mais fraco no trimestre, exigindo atenção redobrada da gestão para a recuperação da performance.
Mercados hispânicos mostram recuperação, mas lucro líquido despenca 92,1%
Enquanto o Brasil enfrentou turbulências, os demais mercados latino-americanos apresentaram um cenário mais positivo. A receita dos mercados hispânicos alcançou aproximadamente R$ 2,1 bilhões, com um crescimento de 0,7% em reais e 7,2% em moeda constante. O Ebitda dessa operação avançou expressivos 92,7%, totalizando R$ 160 milhões, o que ajudou a compensar, em parte, os resultados brasileiros.
Apesar da recuperação em outras regiões, o lucro líquido da Natura despencou 92,1% no segundo trimestre de 2026, caindo para R$ 35 milhões. A companhia atribuiu parte dessa retração a uma deterioração de cerca de R$ 320 milhões no resultado financeiro líquido, relacionada a custos de liquidação de derivativos e a efeitos cambiais contábeis desfavoráveis.
Natura foca em geração de caixa e reduz dívida, mas adia expansão de margem
Mesmo diante de um trimestre desafiador, a Natura conseguiu reduzir sua dívida líquida para R$ 3,86 bilhões em junho de 2026, ante R$ 3,98 bilhões no mesmo período de 2025. A relação entre dívida líquida e Ebitda caiu de 2,18 vezes para 2,06 vezes, demonstrando um controle financeiro. A empresa registrou R$ 342 milhões em fluxo de caixa livre, auxiliando na compensação de despesas financeiras.
A companhia optou por não buscar a expansão da margem Ebitda em 2026, preferindo preservar investimentos considerados cruciais para o crescimento futuro, como marketing, pesquisa e desenvolvimento. A estratégia é manter a geração de caixa e a alavancagem em níveis saudáveis, focando na recuperação operacional para os próximos trimestres.
Mercado reage com cautela e espera por melhorias na execução operacional
Analistas do mercado mantiveram uma postura cautelosa em relação à Natura. O Citi reiterou recomendação neutra, destacando a recuperação dos mercados hispânicos, mas expressando preocupação com a operação brasileira. O BTG Pactual também manteve recomendação neutra, enfatizando a necessidade de melhorias na execução operacional para a retomada da empresa.
O Itaú BBA seguiu a mesma linha, com recomendação neutra e baixa visibilidade sobre a velocidade de recuperação das receitas no Brasil. A entrada da gestora Advent, com cerca de 8% de participação, aumenta as expectativas de possíveis otimizações na estratégia e eficiência operacional da Natura.
O foco nos próximos trimestres será observar a normalização dos estoques, a reação das vendas no Brasil e a melhoria na produtividade das consultoras. A capacidade da Natura em reverter as dificuldades de execução será determinante para a retomada sustentável de suas operações e para reconquistar a confiança do mercado.
