XP Investimentos: Gestores de Fundos Deixam o “Kit Brasil” de Lado e Buscam Dólar Antes de Decisão do Copom
Gestores de fundos multimercados trocam ativos brasileiros por dólar, sinalizando cautela antes da decisão do Copom sobre a taxa Selic.
O mercado financeiro brasileiro se encontra em um momento de grande expectativa com a iminente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa Selic. No entanto, uma pesquisa recente da XP Investimentos aponta uma reviravolta significativa nas estratégias dos principais gestores de fundos multimercados do país.
O otimismo que marcou o início do ano deu lugar a uma postura mais defensiva, com uma forte migração de apostas em direção ao dólar e um recuo no interesse pela Bolsa brasileira e pela moeda nacional. Essa mudança, divulgada pela XP, reflete um aumento da cautela diante das incertezas econômicas globais e domésticas.
A pesquisa, que ouviu 25 gestoras entre os dias 8 e 12 de junho, poucos dias antes da reunião do Copom, demonstra uma das maiores alterações de posicionamento registradas nos últimos meses. Conforme informações divulgadas pela XP Investimentos, o dólar, antes visto como um ativo de queda certa, agora é considerado um importante instrumento de proteção.
Dólar Volta a Ser Porto Seguro em Cenário de Incertezas
O movimento mais expressivo observado na pesquisa da XP Investimentos foi a reversão completa no mercado cambial. Em abril, a unanimidade entre os gestores era a aposta na queda do dólar frente ao real, com 100% das gestoras posicionadas para essa desvalorização da moeda americana. Esse consenso era o maior já registrado pela série histórica da pesquisa.
Contudo, pouco mais de um mês depois, a realidade se transformou drasticamente. Agora, a XP Investimentos aponta que o dólar voltou a ser visto como um ativo de proteção em um ambiente de maior incerteza. Essa mudança de rota não se deve apenas a fatores internos, mas também a um importante rearranjo no fluxo global de investimentos.
Analistas da XP indicam que grandes investidores internacionais têm direcionado capital para empresas ligadas à inteligência artificial, especialmente nos Estados Unidos e na Ásia. Esse movimento impulsionou mercados internacionais e, consequentemente, reduziu o interesse relativo por economias emergentes, como o Brasil. Fatores internos, como preocupações com inflação, juros elevados por mais tempo e tensões geopolíticas, também contribuíram para aumentar a cautela dos investidores.
Real e Bolsa Brasileira Perdem Espaço nas Carteiras dos Fundos
O reposicionamento dos gestores também se refletiu nas apostas envolvendo a moeda brasileira. Em abril, 91% das gestoras mantinham posições compradas no real, demonstrando forte otimismo com a valorização da moeda nacional. Atualmente, esse percentual caiu drasticamente, com a maioria dos gestores adotando uma postura mais neutra ou até mesmo vendida em relação ao real.
Essa alteração sugere uma revisão das expectativas em relação ao desempenho da economia brasileira nos próximos meses. Segundo a XP Investimentos, o movimento não indica necessariamente uma perda de confiança estrutural no Brasil, mas sim uma adaptação ao novo cenário econômico global. A Bolsa brasileira também sofreu com essa mudança de percepção, embora a maioria dos fundos ainda mantenha alguma exposição positiva, o nível de confiança diminuiu consideravelmente.
Os dados da XP mostram um aumento na cautela com ações nacionais, refletindo um ambiente mais desafiador para os ativos de risco. Além da concorrência de mercados internacionais, a economia brasileira enfrenta desafios relacionados à inflação, aos juros e às incertezas políticas, tornando o cenário menos atraente para investimentos agressivos.
Expectativa de Corte Moderado na Selic e Juros Altos por Mais Tempo
Apesar do aumento da cautela em outros ativos, a maioria dos gestores consultados pela XP Investimentos ainda acredita em uma redução dos juros básicos da economia. A expectativa majoritária é de um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, levando-a de 14,50% para 14,25% ao ano. Essa projeção reflete a percepção de que o Banco Central possui espaço limitado para flexibilizar a política monetária diante dos riscos inflacionários.
No entanto, a confiança em um ciclo prolongado de cortes diminuiu. As projeções para o fim de 2026 indicam que o mercado passou a enxergar juros mais altos por um período maior, com a expectativa média para a Selic ao final de 2026 chegando a 14,1%. Esse cenário é influenciado por preocupações com a inflação, o cenário fiscal e a política monetária internacional, que reduzem o espaço para uma queda mais intensa dos juros.
As estimativas para a inflação nos próximos anos também foram revisadas, com a inflação esperada para 2026 subindo para 5,2%, permanecendo acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central. Essa perspectiva reforça a necessidade de cautela por parte da autoridade monetária e a tendência de juros mais altos por um período mais extenso.
Visão Conservadora sobre a Economia Brasileira e o Futuro dos Investimentos
A percepção sobre o cenário doméstico tornou-se mais conservadora nos últimos meses, conforme aponta a pesquisa da XP Investimentos. A visão negativa sobre a economia brasileira ganhou espaço, com uma parcela significativa dos gestores indicando uma percepção neutra ou pessimista. Essa postura mais equilibrada demonstra que muitos investidores preferem aguardar sinais mais claros antes de assumir posições mais agressivas.
Para investidores, a pesquisa sugere que os gestores profissionais estão priorizando a preservação de capital em um momento de maior incerteza. Isso não significa um abandono dos ativos brasileiros, mas sim uma estratégia de espera diante de questões ainda sem resposta. Fatores como a trajetória da inflação, o quadro fiscal, as decisões de política monetária do Banco Central e o cenário político continuarão sendo acompanhados de perto.
Enquanto essas variáveis permanecerem indefinidas, a tendência é que muitos fundos mantenham uma postura mais defensiva, com maior exposição ao dólar e um apetite reduzido por risco. A pesquisa da XP Investimentos, portanto, sinaliza um “kit Brasil” menos atrativo no curto prazo, com gestores buscando proteção antes da decisão crucial do Copom.
