Varejo em Queda Livre na Bolsa: Juros Altos e Ambição Desmedida Levam Gigantes a Colapso, Enquanto Ibovespa Sobe

O setor de varejo na Bolsa de Valores vive um momento crítico, com grandes empresas listadas na B3 registrando perdas expressivas de valor de mercado desde o final de 2022. Essa desvalorização ocorre em contraste com a trajetória de alta do Ibovespa no mesmo período, evidenciando um colapso silencioso que afeta nomes como Casas Bahia, Magazine Luiza e outras redes importantes.

A análise de Marcos Saravalle, CIO da Krivo Capital, aponta uma combinação de fatores que criaram uma verdadeira “tempestade perfeita” para o varejo. Juros elevados, expansão empresarial mal planejada e a crescente concorrência internacional são apontados como os principais responsáveis pela ampla e estrutural destruição de valor no setor.

O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia é o sintoma mais evidente desse cenário adverso. O especialista destaca que o custo de capital disparou, as famílias brasileiras se encontram mais endividadas, a inadimplência corrói as margens de lucro e as plataformas de comércio eletrônico internacionais ganham cada vez mais espaço no mercado. O problema, segundo ele, não é o preço, mas sim a falta de previsibilidade.

Expansão na pandemia se torna passivo com alta dos juros

Saravalle explica que muitos projetos de expansão foram concebidos e implementados durante o período da pandemia de Covid-19. Naquela época, o custo de capital estava artificialmente baixo e a demanda por bens e serviços foi impulsionada por estímulos fiscais governamentais. A expectativa era de que o cenário de juros baixos e consumo aquecido se mantivesse.

No entanto, com a elevação da taxa Selic, o custo de financiamento para manter estoques e gerenciar as operações tornou-se incompatível com a rentabilidade das lojas. O que antes parecia uma estratégia de crescimento robusta em 2020 e 2021, transformou-se em um fardo pesado em 2023 e 2024. A economia desacelerou, o crédito ficou mais caro e o consumidor, receoso, recuou em seus gastos. As lojas físicas, antes consideradas ativos valiosos, passaram a ser vistas como passivos.

Inadimplência e concorrência internacional apertam o cerco

O especialista ressalta que o aumento da inadimplência tem um impacto direto e severo nas vendas e na saúde financeira das empresas varejistas. Famílias com alto nível de endividamento tendem a comprar menos, a optar por parcelamentos mais longos e a aumentar a frequência de pagamentos em atraso. Esse ciclo se torna vicioso: para sustentar o volume de vendas, as redes de varejo flexibilizam as condições de crédito; para proteger suas margens de lucro, elevam os preços dos produtos; e, na tentativa de competir, acabam queimando caixa.

Paralelamente, plataformas internacionais de e-commerce avançam no mercado brasileiro com uma estrutura de custos inferior. Essas empresas não possuem lojas físicas no Brasil, não arcam com um passivo trabalhista tão expressivo e contam com uma logística mais eficiente. Essa combinação de fatores aumenta a pressão sobre as redes tradicionais, que se veem obrigadas a fechar lojas, investir pesadamente em suas plataformas digitais e, ao mesmo tempo, lidar com a insegurança jurídica relacionada a demissões em massa.

Transformação necessária, mas com custo proibitivo

Na visão de Saravalle, o setor de varejo pode passar por uma transformação significativa nos próximos anos. Contudo, esse caminho exige o fechamento de lojas físicas, um foco ainda maior no ambiente digital e uma revisão profunda dos modelos de negócio existentes. O grande obstáculo é que essa transição custa caro, justamente em um momento em que o caixa das empresas está apertado e o crédito, escasso.

A destruição de valor observada no mercado de ações reflete, em parte, a dúvida do mercado sobre a viabilidade dessa travessia. O especialista também avalia que pode ter havido um exagero nas cotações das ações de varejo em períodos anteriores. No entanto, ele pondera que o ajuste atual foi agravado por fatores macroeconômicos que tornaram o modelo de crescimento previamente adotado simplesmente insustentável.

O setor de varejo na Bolsa de Valores continua a funcionar como um termômetro de um segmento que luta para sobreviver à sua própria ambição, em um ambiente onde as planilhas de Excel podem até fechar, mas é o caixa, no fim das contas, que cobra a conta. A situação exige das empresas uma adaptação rápida e eficaz para superar os desafios impostos pelo cenário econômico atual.

Editor

Entusiasta ao marketing online, apaixonado por crédito e finanças pessoais